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  • Rafael Alves

Umberto Eco, manipulação de informações e regulação dos meios de comunicação



Umberto Eco foi um escritor, filósofo e semiólogo italiano que se notabilizou pela observação e análise de fenômenos culturais e seus símbolos. Em seu romance "Número Zero", Eco utiliza o dia-a-dia da redação de um jornal criado para desinformar para levantar uma reflexão sobre a ética jornalística, satirizar os vícios sensacionalistas e expor os meios sórdidos que o jornal usa para manipular as informações em benefício de seu financiador.


As reflexões da obra se tornaram ainda mais atuais. A mídia e a imprensa nunca foram tão deslegitimados sob o pretexto de manipulação, vieses políticos e "fake news". Várias críticas à imprensa são justificáveis e devem ser feitas, como as críticas feitas no livro, mas o problema do cenário atual e as razões da desconfiança para com a "velha imprensa" são mais complexos e sintomáticos. Um meio de comunicação deve ser exposto e criticado quando desinforma e engana deliberadamente, mas em um contexto em que até fatos são politizados o ataque, disfarçado de crítica, tornou-se ferramenta política para deslegitimar todos os veículos de informação que não favorecem as mesmas narrativas. Esse fenômeno erode a confiança social e a percepção da realidade dos que passaram a colocar o mensageiro acima da mensagem.


Com a expansão das redes sociais e seus algoritmos de preferência e recomendações, os meios de informação se tornaram mais difusos, personalizados para nichos, as plataformas recomendam somente conteúdo parecido, e quando se trata de política, isso é um terreno fértil para a criação de bolhas de informação, radicalização e conspiracionismo.


Grande parte das reflexões sobre o assunto para logo depois de reconhecer esse fenômeno como um problema, já que a busca por soluções geralmente colide com princípios como a liberdade de imprensa e de expressão, mas vem crescendo no Brasil a discussão sobre a regulamentação de meios de comunicação como um remédio contra a desinformação e uma forma de resgatar o debate público saudável. Essa ideia é veiculada como uma solução pragmática, mas ela também levanta uma série de problemas. Qual o grau de regulação seria ideal? Quem decide o que é desinformação? Qual é a linha de censura?


Esses problemas se tornam graves quando se leva em consideração o contexto de bolhas de informação, desconfiança e caos político. O que hoje são ataques e guerras de narrativas podem virar atos de censura com o poder de regular meios de comunicação. Uma intervenção que vem com a intenção de restaurar boas práticas no debate público pode ser a maior arma para destruí-lo.


Há também a questão da efetividade dessa medida. Em "Número Zero" a intenção dos jornalistas é mentir e manipular informações para pressionar um grupo de poderosos que possuíam poder político em prol do financiador do jornal. Caso esse poder político fosse usado para retirar o jornal de circulação, haveria então um livro, escrito por um integrante do jornal, contando uma história em que bravos jornalistas que descobriram a verdade e foram censurados por políticos corruptos e tiranos, validando assim, a narrativa original do jornal. A censura seria utilizada como instrumento para alavancar o discurso censurado. A tentativa de suprimir discursos radicais, falsos, desinformação e conspiracionismo por meio de uma ação do estado pode não ser tão eficaz com a difusão massiva e fácil em redes sociais e plataformas de mídia alternativa, coisa que tem o potencial de contribuir com a inflamação dos mesmos discursos que visa combater.


O tema é importante e deve ser discutido com seriedade e clareza, sem ceder aos que buscam poder para censurar ou aos incautos que podem não avaliar todas as consequências da regulação.


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