Buscar
  • Isso é Liberdade?

A Servidão (In)voluntária e o Medo da Liberdade.

Já se perguntou o porquê de a liberdade assustar tanto?


Para parte dos estudiosos, os indivíduos veem ao mundo predestinados por valores sociais. Nós, mesmo antes de nos reconhecermos como pessoas, já carregamos um papel diante da sociedade. Segundo Bauman, “Há um desagradável ar de impotência no temperado caldo da liberdade preparado no caldeirão da individualização: essa impotência é sentida ainda mais odiosa, frustrante e perturbadora em vista do aumento de poder que se esperava do aumento de liberdade trouxesse”, evidenciando, dessa maneira, a quase que inerência da falta de comodidade que assola a liberdade. Constitui-se, dessa forma, a percepção de que melhor é permanecer sob o jugo de uma servidão, quando as bases que a sustentam, já estão consolidadas e bem incorporadas na estrutura social, que nos mostra a pseudo segurança que a servidão voluntária formulada por Étienne de La Boétie nos propõe.


Étienne mostra que a liberdade, em contraste com a servidão, revela-se incerta e com potencial de desnudar as fragilidades de quem a busca. Dessa forma, um dos sustentáculos da servidão voluntária é justamente o medo de sermos estigmatizados e nos sentirmos perdidos diante de tantos grupos. Nos sentimos seguros, de alguma forma, quando ajustados e submissos a um arranjo hierárquico que nos mostre algum tipo de direção e “caixa” para se alojar. Esse sentimento de acomodação nos explica a passividade que assumimos e a forma como nos submetemos de bom grado a todo tipo de injustiça sem nem mesmo perceber o quanto estamos sendo prejudicados.


Paradoxalmente, a servidão voluntária pode ser percebida como sendo não uma maldição e sim uma benção. Como visto no existencialismo proposto por Sartre, o indivíduo precisa construir sua identidade, definindo, por meio da mesma, o que seria sua essência. Com o eventual aumento da liberdade, instala-se, não mais a limitação, mas a falta dela, o excesso de escolhas que tanto nos assusta.


V de vingança é um drama distópico sobre um Estado ditatorial que impõe seus valores sobre os cidadãos, onde mesmo uma piada contra o líder do governo pode levar a prisão. Dentro da trama o menor sinal de revolta contra o governo ou contra os "bons costumes" leva inevitavelmente a opressão governamental.


Uma das metáforas do filme é que o personagem principal parece ter poderes sobre humanos, que junto do seu absoluto anonimato, possui uma resistência física e habilidades quase perfeitas, ideais. Essa mensagem é reafirmada desde ao começo até o fim da obra:


"Ideias não são só carne e osso. Ideias são à prova de balas." Este é o mote do filme leva a perceber que "V" está mais para a incorporação de um ideal de liberdade do que de uma pessoa física. Observe-se que no decorrer do filme é revelado que o protagonista é um homem que sofreu inúmeras atrocidades e experimentos biológicos por agências governamentais.


Se interpretarmos analogamente esses experimentos sofridos, podemos perceber uma tentativa governamental de deturpar valores morais na sociedade. No desfecho do filme a "ideia V" é assimilada por um corpo robusto da sociedade, como um grito outrora reprimido.


Diante disso, nos resta a seguinte indagação, seria a servidão realmente voluntária? Qual o perigo de opor valores ou instituições? A liberdade se perde como um todo ou gradualmente?

32 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo